quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Maus Tempos

O sol bateu-me no rosto
O vento quis empurrar-me
E a chuva molhou-me aos poucos
Brincadeiras de mau gosto
Com seu motivo de alarme
Para eu me livrar de loucos

O sol queimou as searas
O vento arrasou pinheiros
E a chuva alagou a terra
Turvaram as águas claras
Só vejo tristes madeiros
Tenho que fugir da serra

Fiquei sem o meu rebanho
Perdi o meu belo arado
Tombou meu lindo moínho
E em busca dum mundo estranho
Levo o meu duro cajado
Para me abrir o caminho

No meu saco de lembranças
Levo sorrisos, esperanças
Duma ingénua mocidade
E ao despedir-me depois
Um velho carro de bois
Carrega a minha saudade.

Frederico de Brito

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Talvez Por Acaso

Tu dizes que a culpa é minha
Eu acho que a culpa é tua
E vamos ficando assim
Até que um dia à tardinha
Por acaso numa rua
Tu hás-de passar por mim

Com rancor e azedume
Sem razão e sem emenda
Talvez a gente se insulte
Ou então, contra o costume
Talvez a gente se entenda
E o caso resulte

Por acaso, sem querer
Quem sabe se é dessa vez
Que nós fazemos as pazes
Possa o acaso fazer
O que a saudade não fez
E nós não fomos capazes

A vida dá-nos sinais
Quanto mais o tempo passa
De que o amor tem um prazo
Por isso nunca é demais
O que quer que a gente faça
Para provocar o acaso.

Manuela de Freitas

A Tua Sorte

Partiste num dia de tempestade
Deixando apenas por lembrança
Aquela meiga e terna saudade
Que nasce quando morre a esperança

Memórias, não sei onde as guardaste
Em mim não ficou nem uma história
Tudo o que fizemos, em vão levaste,
Talvez para construir a tua glória

Pois tudo o que foi nosso, que seja teu
Para mim, afinal, já nada importa
Em mim não deixaste nada de meu
Não voltes a bater à minha porta

Lágrimas - também não irei chorar
A saudade em mim tem o fim da morte
E se hoje continuo a cantar
É porque não me entreguei à tua sorte.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uma revolução tem de ter sangue, se o não tiver... bem, aí temos o resultado 36 anos depois.
Uma revolução tem de ter sangue, se o não tiver... bem, aí temos o resultado 36 anos depois.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mãos Desencontradas

Na memória não me escondas
Ouve a grandeza das ondas
Que por nós foram quebradas
Naufragámos sem passado
Nesse encontro desejado
Entre as mãos desencontradas

Se a lembrança nos condena
Se por nós não vale a pena
Mais alguém ficar ausente
Sem pecado e sem demora
Esqueceremos vida fora
Tudo aquilo que é presente

Numa noite cega e fria
Quando a chuva esquece o dia
E a madrugada é constante
Junto a quem nunca perdi
Hoje sei que não esqueci
Quem de mim ficou distante.

Aldina Duarte

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Quando Vieres Logo À Noite

quando vieres logo à noite
rosto aberto e desejado
embora não vendas tudo
ao coração sem mercado
adianta-me o silêncio
que faz brisa ao pé do mar
para eu estar prevenido
quando o silêncio chegar

depois na feira dos olhos
que tanta poeira fazem
como quem vende bondade
às sombras da vadiagem
adianta-me a tristeza
sob as tranças do luar
para eu estar prevenido
quando a tristeza chegar

e se puseres tuas mãos
nesta varanda inquieta
de tanto ouvir a distância
das palavras do poeta
adianta-me a saudade
do teu corpo sem lugar
para eu estar prevenido
quando a saudade chegar.

Actor como todos nós,
poeta como poucos o foram...
Vasco de Lima Couto