segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Rifão Quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse:
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria

Palavras para quê?

domingo, 14 de setembro de 2008

No Silêncio Da Noite

Ás vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois

Por quê você me deixa tão solto?
Por quê você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!

Não sou nem quero ser o seu dono
Mas é que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Por quê você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela de repente me ganha?

Quando a gente gosta é claro que a gente cuida
Fala que me ama só que é da boca para fora
Ou você me engana ou não está madura
Onde está você agora?

Caetano Veloso

Talvez te ame da mesma maneira com que as andorinhas voltam na Primavera e com que as folhas caem no Outono, porque é natural, porque está no tempo, porque tinha de ser...

Ainda Que

Ainda que mal pergunte,
Ainda que mal respondas;
Ainda que mal te entenda,
Ainda que mal repitas;

Ainda que mal insista,
Ainda que mal desculpes;
Ainda que mal me exprima,
Ainda que mal me julgues;

Ainda que mal me mostre,
Ainda que mal me vejas;
Ainda que mal te encare,
Ainda que mal te furtes;

Ainda que mal te siga,
Ainda que mal te voltes;
Ainda que mal te ame,
Ainda que mal o saibas;

Ainda que mal te agarre,
Ainda que mal te mates;
Ainda assim te pergunto
E me queimando em teu seio
Me salvo e me dano: Amor.

Carlos Drummond de Andrade

A pergunta agarra-se à garganta como um sufoco que não sabe como há-de sair. Olho para todos os lados à procura de algo que não me seja estranho, mas apenas vejo estas estranhas sombras que o Outono teima em trazer consigo; nesta altura é tudo tão diferente, o céu tem cores castanhas e parece que o Inferno subiu à terra tal é a humidade e a temperatura que tem tudo à nossa volta, as ruas, os corpos...há uma estranha transpiração no Mundo por esta altura, há os gritos sufocados das dores não reveladas, há a solidão dos quartos de Lisboa onde as janelas nunca se abrem, há a miséria encoberta do mendigo que anda pelas ruas sem destino. E há a pergunta...esta estranha pergunta que rouba os ponteiros ao relógio e faz o tempo parecer areia que escorre por entre os dedos. Ponho água por todo o corpo para tirar este cheiro, para tirar esta podridão que nos absorve, andamos no mundo e julgamos ser seres limpos mas todos temos tantas coisas que encobrimos, que não revelamos, somos imundos. Porque não dizemos tudo o que nos apetece? Porque não revelamos todos estes segredos que fazem parte de nós, um dia alguém vai descobri-los e não vai ter nenhum problema em os revelar, mas isto é uma troca de favores, se alguém conta algo nosso nós contamos algo desse alguém, e assim sucessivamente, ninguém anda encoberto neste estranho "Big Brother" em que vivemos, somos constantemente vigiados, em cada rua alguém espreita e em cada beco alguém nos espera, sabe-se lá para quê...

Sabe-se Lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se Lá
Amanhã o que virá

Breve desfaz-se
Uma vida honrada e boa
Ninguém sabe quando nasce
Para o que nasce uma pessoa

É estranho o pulsar da terra, os rostos na rua, as ondas da praia...quem inventou tudo isto e para quê? Qual o destino desta Humanidade? Porque andamos todos aqui? Temos direcção? Então porque é que ninguém nos entregou um mapa à nascença? Pelos menos dêem-nos pistas para sabermos para onde vamos, por onde devemos seguir...ou talvez seja melhor assim, cada um construir os caminhos à sua maneira, ao fim ao cabo a meta é sempre a mesma, a morte espera-nos nalguma encruzilhada e esse é o fim para que todos corremos. E todos gostamos de alguém, andamos à procura desse tal amor que dê algum sentido ao estarmos aqui, que nos apoie um pouco neste estranho bulício que vivemos, e todos temos a pergunta na cabeça:

Amas-me?
Amamo-nos?

Amo-te?

xiuuuu...

Crescimento

Será possível apagarmos da memória coisas que aconteceram connosco? Talvez não, mas por vezes ela surpreende-nos e há já coisas que nem nos lembramos que aconteceram. Até os pequenos momentos de felicidade que foram passando por nós ganham um sentido relativo quando comparados com um todo (que é a nossa Vida). Tive alguns desses momentos, todos tivemos, mas também tive os que vêm depois das ilusões vividas (a felicidade não passa de uma ilusão, quanto muito há momentos em que nos sentimos mais alegres e mais em paz com tudo o que nos rodeia). Hoje não voltaria a cometer erros do passado, não sou o mesmo que era, embora por vezes possa parecer; o que muda não está à vista, está guardado num sítio à espera de se mostrar, ou talvez não tenha coragem para tal e viva apenas dentro de nós para a eternidade. Eternidade...também acreditei nela, que ela apenas tinha o tempo que nós queríamos e coisas desse género, é tudo tão mais simples, o tempo é tão mais simples, e uma porta que se fecha é uma janela que se abre, e uma janela que está encostada é uma gaveta que está entreaberta e por aí adiante...realmente é tudo relativo. As coisas parecem difíceis de ultrapassar no momento mas depois o tempo vai passando, o sol vai continua a nascer, a lua a brilhar, as estrelas a aparecer e tudo parece mais simples, o mundo não parou, o Universo continua a trabalhar, continuam a aparecer novas pessoas e novos caminhos por onde seguir. Não esquecemos o que ficou para trás, apenas algumas coisas que a memória vai censurando com o tempo mas que se quisermos ainda lembramos, eu não quero, prefiro viver nesta doce calma de andar e poder ver quem quer que seja que o meu coração continua a ter as batidas normais. Já não ando à espera que um telemóvel toque, de voltar a sítios onde fui "feliz", de ouvir as canções que ouvia...hoje o telemóvel toca quando tem de tocar, os sítios são apenas sítios por onde passei (e o Mundo ainda tem tantos...) e as músicas são apenas poemas que fizeram sentido numa certa altura. Talvez as mudanças se vejam nestas pequenas coisas, nestes pequenos passos, como se fosse um bebé a aprender de novo a andar, e sabem uma coisa? Já não preciso do apoio de alguém, já me sei levantar sozinho:)

sábado, 6 de setembro de 2008

À Meia Noite Todos Os Gatos São Pardos...

Não sei mais o que dizer. Dissemos tudo o que poderia ter sentido e algumas coisas ainda ficaram por falar, embora talvez nunca venham sequer a ser ditas. Olhos nos olhos as coisas seriam de outra forma, não seria esta estranha cadência que as palavras escritas têm, sairiam as coisas naturais, as palavras essenciais, pois as palavras ditas são mais forte que as escritas. Algumas coisas ficaram-me na memória, não tenho a certeza se as quero apagar, penso que não devemos apagar aquilo que é nosso, aquilo que ouvimos, dissemos, escrevemos...tudo isso será importante depois, para recordar tempos mais tarde, para vermos as atitudes que tomámos, por vezes não foram as mais certas (já me arrependi de tantas...) mas na altura tinham sentido e só por isso merecem o meu respeito. A vida é tão confusa por vezes; não nos deixa ver aquilo que queremos, fazer aquilo que queremos, ser imponderados, não pensar, não ponderar nas coisas (porque se perde tanto tempo a pensar e não se age logo? Acabamos por fazer a asneira à mesma, mais vale fazê-la o quanto antes...). Somos todos um projecto inacabado, no papel, nunca chegamos a ser o edíficio completo, ficamo-nos sempre pelos pequenos pormenores, à superfície do que poderíamos realmente ser, claro que uns vão mais longe do que outros (e há uns que embora estando para trás pensam sempre que estão alguns passos à frente, só mostra o quanto ainda lhes falta tropeçar, cair...). O jogo está viciado...as cartas são sempre as mesmas...o baralho é antigo...os jogadores não mudam..cheira tudo a mofo, o mundo está repleto de naftalina e não passa de bolor agarrado ao Universo; por vezes penso que devia vir um cometa e arrasar com isto tudo, começar tudo outra vez, mas não para isto ficar melhor...apenas para isto ficar diferente, é tão entediante acordar e ver que tudo está na mesma, nada muda, tudo à nossa volta permanece igual. Sim...há alturas em que tudo nos parece diferente e parece que as coisas mudaram, ilusão do momento, por dentro, no caroço das coisas, continua tudo igual, o bicho continua a roer a fruta enquanto nós ainda vamos na casca. Era necessário uma vacina para tudo isto, bem espetada no coração de cada um de nós (ou na cabeça? Onde está o ínicio de tudo? Quem nasceu primeiro? A galinha ou o ovo? A realidade ou a ilusão? Será que somos uma verdade, uma coisa concreta? E se temos fios? E se somos manipulados como marionetas? E se alguém constrói o nosso destino num caderno de linhas tortas? E se alguém está a escrever a nossa vida? Será que nesse sítio existe corrector? Que se podem apagar certas coisas?) É tudo tão superficial, andamos por aí e é tudo tão à superfície...ninguém se conhece, ninguém quer conhecer os outros, somos coisas minisculas que vamos chocando uns nos outros a certa altura mas que seguimos sempre caminhos diferentes. Que estranhas são as caras do mundo...das pessoas...das ruas...tudo com máscaras...tudo uma tragédia sem autor. Faltam-me as palavras, não sei mais como descrever tudo isto, mas também não tenho de o fazer, posso ser como os outros...um inútil que fica a assistir ao estranho espectáculo que é a vida, porque tenho de ser um interviniente? Posso apenas ser um mero espectador, não saltar para o outro lado da cortina (mas a tentação é tão grande...de pertencer ao espectáculo). Não quero olhar para ninguém hoje, vou apenas olhar para um espelho (já sei que vou fugir, já sei que vou ter medo dos meus olhos e do que eles mostram), mas posso sempre apagar as luzes e ficar apenas eu e o espelho, na penumbra...eu a tentar entrar em mim mesmo, numa estranha metamorfose. O silêncio pode dizer tantas coisas, pode trazer tantas novidades. Vou abrir a minha janela e vou fitar a lua, como se estivesse a preparar um duelo sem armas (ou tu ou eu...) e será que ela vai responder? Será que a lua vai descer de lá de cima e vai entrar pelo meu quarto a dentro? Será esta essa noite? Será? À meia noite todos os gatos são pardos...

Ao vento...

Baixo os braços e a cabeça como comandante derrotado perante o seu batalhão. Cansei-me de tudo; depois das guerras passadas, do deserto percorrido, já nada ficou, já nada resta. Apenas o estranho sossego destas tardes de Setembro, a estranha brisa que corre pelas árvores e faz com que as folhas se movimentem lentamente. Antes eu também queria ser folha, queria poder cair de uma árvore enorme e andar por aí sem destino, apenas voar pelos sítios que já conhecia, mas agora quero ser árvore, não pretendo mais sair do mesmo sítio, quero ser o estranho monge que não desce da montanha e que ali fica feliz. Também eu sou feliz agora, nesta montanha onde me pus a observar tudo o que se passa nas terras distantes. Apetece-me ouvir guitarras, abraçar-me à canção e cantar os grandes poemas da nossa língua, sentir o sal da língua, sentir este mar que somos neste oceano em que nos perdemos, cantar, cantar...percorrer as ruas de Lisboa, ir à velha taberna e poder ver o sorriso (de tristeza, de alegria...) na cara das pessoas. Hoje quero ser embalado por essas canções de resistência, quero gritar às paredes para que o povo me ouça pela cidade:

Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei D'Aquém e Além-mar

Não me obriguem a vir para a rua gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar...
Tiriririri...buririririri...tiriririri...puraburiabaie...

Já sinto o cheiro a terra nova, a terra nunca antes pisada, a qualquer coisa de novo que se move, novos tempos se aproximam (sempre), temos apenas de estar disponíveis para eles e sentir-lhes o sabor, olhar para o céu e saber interpretar as nuvens, não ver caras mas ver presságios, ver o nosso futuro escrito no azul do céu. Antes eu não era assim mas:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Muda-se o amor e a esperança
Todos nós somos compostos de mudança...

Mas não me esqueço do que ficou para trás, seria impossivel fazê-lo, foram tantas coisas, tanta Vida, dezoito anos, foi tudo isso que ajudou a construir aquilo que eu hoje sou, foram todos vocês que vão passando pelo meu caminho (os que ficaram, os que foram...), todos vocês que ainda vão aparecer, todos aqueles que desapareceram sem deixar rasto mas que ainda me vou lembrando (tempos em que tinha berlindes na mão e chegava a casa com as calças sujas...). Obrigado. Obrigado por tudo aquilo que me trouxeram, principalmente as pessoas especiais que foram passando por mim (poucas é certo mas insuficientes ainda...). Venham mais cinco, venham mais dez copos, vamos fazer uma grande festa, vamos brindar a nós todos, vamos festejar tudo isto que nos acontece. Batam copo com copo. Quero ouvir o estranho som do vidro, e ao fim da noite ver o nascer do sol na minha janela. Respirar o ar da manhã, ser a tal árvore, grande, repleta de folhas, ao vento...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Início / O Livro Dos Amantes II

Uma dor fina que o peito me atravessa,
A escuridão que envolve o pensamento,
Um não ter para onde ir cheio de pressa,
Um correr para o nada em passo lento,

Um angustiante urgir que não começa,
Um vazio a boiar no alheamento,
Uma trôpega ideia que tropeça
No vácuo de um estranho abatimento.

É tédio? É depressão? Talvez loucura?
É, para um além de mim, passagem escura?
Um ir por ir que não tem outro lado?

É, sem máscaras, a esperança enfim deposta,
Ou no extremo da verdade exposta
A ironia feroz de um deus calado?

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Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

Natália Correia