domingo, 14 de setembro de 2008

Ainda Que

Ainda que mal pergunte,
Ainda que mal respondas;
Ainda que mal te entenda,
Ainda que mal repitas;

Ainda que mal insista,
Ainda que mal desculpes;
Ainda que mal me exprima,
Ainda que mal me julgues;

Ainda que mal me mostre,
Ainda que mal me vejas;
Ainda que mal te encare,
Ainda que mal te furtes;

Ainda que mal te siga,
Ainda que mal te voltes;
Ainda que mal te ame,
Ainda que mal o saibas;

Ainda que mal te agarre,
Ainda que mal te mates;
Ainda assim te pergunto
E me queimando em teu seio
Me salvo e me dano: Amor.

Carlos Drummond de Andrade

A pergunta agarra-se à garganta como um sufoco que não sabe como há-de sair. Olho para todos os lados à procura de algo que não me seja estranho, mas apenas vejo estas estranhas sombras que o Outono teima em trazer consigo; nesta altura é tudo tão diferente, o céu tem cores castanhas e parece que o Inferno subiu à terra tal é a humidade e a temperatura que tem tudo à nossa volta, as ruas, os corpos...há uma estranha transpiração no Mundo por esta altura, há os gritos sufocados das dores não reveladas, há a solidão dos quartos de Lisboa onde as janelas nunca se abrem, há a miséria encoberta do mendigo que anda pelas ruas sem destino. E há a pergunta...esta estranha pergunta que rouba os ponteiros ao relógio e faz o tempo parecer areia que escorre por entre os dedos. Ponho água por todo o corpo para tirar este cheiro, para tirar esta podridão que nos absorve, andamos no mundo e julgamos ser seres limpos mas todos temos tantas coisas que encobrimos, que não revelamos, somos imundos. Porque não dizemos tudo o que nos apetece? Porque não revelamos todos estes segredos que fazem parte de nós, um dia alguém vai descobri-los e não vai ter nenhum problema em os revelar, mas isto é uma troca de favores, se alguém conta algo nosso nós contamos algo desse alguém, e assim sucessivamente, ninguém anda encoberto neste estranho "Big Brother" em que vivemos, somos constantemente vigiados, em cada rua alguém espreita e em cada beco alguém nos espera, sabe-se lá para quê...

Sabe-se Lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se Lá
Amanhã o que virá

Breve desfaz-se
Uma vida honrada e boa
Ninguém sabe quando nasce
Para o que nasce uma pessoa

É estranho o pulsar da terra, os rostos na rua, as ondas da praia...quem inventou tudo isto e para quê? Qual o destino desta Humanidade? Porque andamos todos aqui? Temos direcção? Então porque é que ninguém nos entregou um mapa à nascença? Pelos menos dêem-nos pistas para sabermos para onde vamos, por onde devemos seguir...ou talvez seja melhor assim, cada um construir os caminhos à sua maneira, ao fim ao cabo a meta é sempre a mesma, a morte espera-nos nalguma encruzilhada e esse é o fim para que todos corremos. E todos gostamos de alguém, andamos à procura desse tal amor que dê algum sentido ao estarmos aqui, que nos apoie um pouco neste estranho bulício que vivemos, e todos temos a pergunta na cabeça:

Amas-me?
Amamo-nos?

Amo-te?

xiuuuu...

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