domingo, 18 de janeiro de 2009

Prelúdio da Noite

É no prelúdio da noite que ele lembrava-se dos braços que envolviam o corpo há muito esquecido. Era naquela hora em que os bichos voltam às tocas que ele era assaltado por memórias difusas e sem sentido, como se os bichos ao correrem levassem atrás deles recordações de um tempo passado. Por vezes chorava ao ir à janela da noite e lembrar-se das estrelas que já tinham sido dele e hoje eram apenas estrelas num céu povoado de sonhos (terra de ninguém...)
Naquela noite a lua decidiu não aparecer; talvez fosse um capricho ou tivesse demasiado atrasada para outro encontro, noutro sistema solar, com algum planeta mais atrevido. Naquela noite ele não viu os olhos da lua, e fazia-lhe falta aquele olhar de onde escorria a luz que embalava as casas já adormecidas pelo tempo. Deixou-se ir no doce enleio que é o canto das flores quando esperam água vinda dos céus, mas a chuva tardava e as flores iam murchando, tal como os sonhos...
Voltou para dentro de casa e olhou ao seu redor, apenas para ver se algo lhe era familiar, foi quando chegou à conclusão que nada dali lhe pertencia, que nada daquilo era seu, que cada objecto que ali estava pertencia a uma estória que já não era a sua. Pegou numa mala e saíu.

Resta o silêncio.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Os Saltimbancos

Vinham de longe, de muito longe
Corriam fronteiras terras
Passavam por todas as serras
Por onde o vento deixou memória

Hoje ninguém sabe a história
Desses saltimbancos de outrora
Roubaram-lhes toda a glória
O que será? O que será?
O que será deles agora?

Passaram um dia na aldeia
Numa noite de lua cheia
Roubaram a filha ao pastor
Noite de medo, noite de terror

A filha nunca mais voltou
O pai muito chorou
E os desgostos foram tantos
Por culpa dos saltimbancos...

Não respeitam ordem nem lei
Não sabem o que sabes, o que eu sei
Apenas respeitam a lei que é a sua:
A da rua! A da rua! A da rua! A da rua!

Sabes Lá O Que São Abraços

É nos abraços do teu abraço
Que eu vejo o mundo no seu passo
Correndo sem direcção
Por muito que corra não passa do chão

E lá vai ele como gazela
Que enfrenta o mundo com pé de cinderela
É a princesa fugitiva
A primitiva, a cativa...

E grita que é liberdade
E diz que mais que rua é cidade
Sabes lá o que são abraços:

Num convento são doze passos
No terreiro são embaraços
Nas prendas são os laços
Na ternura são cansaços

Sabes lá o que são abraços.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Estilhaços

Deitou-se com o corpo de todos os dias.

A cama estava um pouco desalinhada e havia até restos de passado por entre os lençóis amarrotados.

O cheiro era diferente; talvez fosse um perfume de estrelas ou até o cheiro que a lua deita quando escorre chuva por entre os seus cabelos.

Estendeu a mão e alinhou os cortinados para conseguir alcançar a noite apenas com o olhar. De soslaio reparou que a janela estava entreaberta e talvez por isso sentisse um frio pelo corpo. Fechou-a. O frio não passou.

Olhou para o lado e viu que na mesa de cabeceira estava um livro ainda por abrir, ao lado do livro um velho relógio que há muito tinha deixado de dar horas, como se o tempo tivesse decidido ter uma pequena pausa.

Bocejou. O bocejo de todos os dias.

Nada tinha mudado na casa, apenas no seu corpo, no seu velho corpo. Era apenas um revestimento para aquilo que tinha dentro de si, uma pele que não sabia cair e voltar a nascer, um resto de qualquer coisa, um nada...sim, um nada.

Naquela noite não chorou. Foi a única diferença dessa para as outras. Naquela noite as lágrimas ficaram geladas dentro de si e ao pensar nisso o frio voltou a entrar-lhe pelos ossos e pela pele, como se o corpo fosse apenas um arrepio.

Não teve coragem de olhar-se ao espelho. Faria isso de manhã...talvez fizesse isso de manhã.

Pegou num copo de água que tinha sempre junto à cama e atirou-o contra a parede.

Pegou num bocado de vidro.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Fado Mulato

Eu sou o amor do sim e não
Imagem sentimento do poeta
Eu sou o sol fogo e paixão
Sou filho de inventar
Eu sou a festa
Esta festa

A raça minha raça
Um acto de criar depois da criação
Meu pai uma guitarra
Tocada num kissanje minha mãe

Eu sou da cor dos sons do amor
Fui feito de viagem fantasia
Eu sou do amor dos sons da cor
Sou filho de sonhar
Sou algria
Sou fogo
E paixão

De uma mulher

De uma mulher

Que anda na vida a viver
De uma mulher
Com missangas de luz a brilhar
De uma mulher
De uma mulher
Que anda no céu
E nem eu
Sei cantar.

Manuel Ruy Monteiro

sábado, 3 de janeiro de 2009

Eu, que sou feio...

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal

Sentado à mesa dum café devasso.
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura.
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço

E, quando socorreste um miserável,
Eu que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez não o suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca

Adorável! Tu muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Cesário Verde

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Mais Um Ano...Ano Novo

Mais um ano que correu no lavrar do viver
Mais um ano que foi arado com terra por mondar
Mais um ano em que tudo ficou por dizer
Porque a boca nem sempre é feita para falar

Contudo, mais um ano vivido por nós
Que caminhamos sem pressa de alcançar...
Mais um ano de solidões feitas voz
Porque até a mudez foi feita para falar

Ano novo, cheiro a trigo, romã
Aroma de ervas espalhadas na terra
Doce de ameixa na boca - verdade

Ano novo, talvez uma nova manhã
Que de chuva é feita e em si encerra
Todo o nosso corpo feito de saudade.